
É tempo de mudanças, grandes mudanças. A constante evolução e revolução da tecnologia nas últimas décadas chegou como uma grande e devastadora onda, engolindo gravadoras e trazendo novas questões a serem resolvidas dentro da indústria fonográfica - além de mudar a forma de pensar de quem faz, consome e vende música. Por muitos anos o mercado musical se manteve numa curva ascendente e megalucrativa, com artistas, gravadoras e distribuidoras ganhando muito dinheiro. Atualmente, o cenário é outro. O tempo passou, as tecnologias se popularizaram, o público reverteu seu comportamento de consumo, as gravadoras deixaram de existir como grandes impérios, o perfil do artista deu uma cambalhota e hoje a chance de ter visibilidade é enorme (mesmo que por 15 minutos).
A chegada do MySpace ao Brasil no final de 2007 é um sinal de que o mercado realmente está muito diferente. Atualmente, 12 milhões de artistas e bandas possuem um perfil no site de relacionamentos. E muitos dos que estão ali nem cogitam a idéia de gravar suas músicas em CD, suporte físico que ficou pequeno diante dos tocadores de mp3. O que virá daqui para frente? Sem a pretensão de fazer profecias ou de se chegar a uma única conclusão, Luiz Pimentel, diretor de conteúdo do MySpace Brasil, Carlos Eduardo Miranda, produtor musical, Gonçalo Vinha e Paulo Rodrigo Sbrighy, sócios no selo Offbeat, Renato Cohen, produtor, e Alexandre Matias, jornalista do jornal O Estado de S.Paulo, trocaram opiniões sobre o tema.
DJ MAG A presença de sites como o MySpace Brasil e o Trama Virtual deixa evidente a popularização da música on-line. Como essa nova tecnologia tem afetado as gravadoras e movimentado o mercado fonográfico?
Miranda A casa de todo mundo hoje é uma gravadora. Daqui pra frente, o que vai existir são agências de artistas que cuidam da carreira deles. As gravadoras sabem que o negócio delas acabou, pois era baseado no suporte CD. Mas o CD não morreu e não vai morrer. Ele está na rua, todo mundo ainda usa. O que morreu foi a indústria do CD.
Gonçalo Vai haver uma segmentação no mercado. Você só trabalha bem um artista quando tem contato direto com o público que quer atingir.
Miranda Mas acho que já estamos além da segmentação. O negócio é pessoal, esse é o futuro. O cara é seu amigo, você sabe quem é o artista e as agências sabem exatamente quem é o público que consome.
Gonçalo Pra mim, o CD já é só um cartão de visita.
Miranda O que rola hoje é a variedade. Não há necessidade do suporte. O Trama Virtual e o MySpace representam isso.
Luiz Pimentel O MySpace chegou ao Brasil por ser uma rede social muito difundida no país e focada em cultura pop. Hoje temos aproximadamente 12 milhões de perfis de artistas ou bandas no MySpace. O que mais ouço dos artistas é que o que eles mais gostam no site é a facilidade de relacionamento. Se entro no site de uma banda, aquilo acaba sendo uma rua sem saída. Chego até lá, absorvo o que tem ali e pronto. Agora, se vou no perfil no MySpace de uma banda, começo a caminhar, a partir daquele perfil que eu entrei, para outras coisas que tenham a ver comigo. Isso é que garante o sucesso do MySpace.
Miranda É um site caótico, pesado pra caramba, mas que dá supercerto. A liberdade de cada um montar sua página usando vários tipos de padrões que podem ser bagunçados à vontade acabou virando um charme. Pra mim, o grande mistério do MySpace é o novo perfil de artista, que hoje não é mais o cara da limusine e do pedestal, é um cara igual à gente, que está ali ouvindo os outros artistas também. O bom é que se tenho uma página ali e adoro tal artista, vou até a página dele e o convido para ser meu amigo. E ele aceita! Sou amigo do meu artista, está escrito lá, "Add friend". Aí, entro na rede de relacionamentos dele e vejo um monte de gente que conhece coisas que não conheço. Começo a fuçar e aquilo vai se transformando num universo tão grande de novidades que eu queria ser uns dez pra poder aproveitar bem.
Matias Um dos motivos de êxito tanto do MySpace como do Trama Virtual é que as bandas que começaram a fazer sucesso nesses sites vieram da cena independente, que já era organizada. Na verdade, os caras só pegaram uma cena que já se comunicava de outras formas, por telefone, correio, e otimizaram isso. Se o MySpace fosse voltado pra comunidade do cinema, não sei se daria certo como está dando com a música, que sempre teve essa coisa da troca.
Miranda Quando o artista me pergunta o que fazer para entrar no mercado, sempre digo que o caminho é a internet e a rua. Rua porque você tem que ir aonde as pessoas que possam gostar do seu trabalho estão, e também para procurar onde estão os artistas semelhantes a você; e na internet não é só colocar a música no MySpace e esperar que vá surgindo um monte de gente pra te ouvir. Primeiro tem que se mostrar fã dos outros, procurar aquilo que gosta, porque aí o artista vai começar a receber de volta.
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